31.8.08
Feliz 1958!

Sugestão de Leitura:
(do livro: Feliz 1958 – O Ano que não Devia Terminar, de Joaquim Ferreira dos Santos, Ed. Record)
Alguns fatos que marcaram este ano:
1. O carioca vive a felicidade de abrir seus jornais e encontrar textos de Antônio Maria em O Globo, de Carlos Drummond de Andrade no Correio da Manhã, de Rubem Braga, no Diário de Notícias e de Sérgio Porto na Última Hora. A imprensa tem cerca de vinte títulos diários no Rio. No Jornal do Brasil, a equipe de Odillo Costa Filho, Amílcar de Castro, Reynaldo Jardim e Jânio de Freitas faz uma reforma com bases neoconcretistas e inventa o jornalismo moderno que seria praticado em todas as redações brasileiras nas décadas seguintes.
2. O rinoceronte Cacareco, do zoológico carioca, visita São Paulo e vira um xodó dos paulistanos. Nas eleições de outubro recebe cem mil votos para vereador da cidade. Nessa condição de superzoostar. Ele passei, em caminhão cercado de conforto, por vários estados. Stanislaw Ponte Preta sugere que, na próxima eleição, Cacareco saia para governador e suceda Ademar “Rouba mas faz” de Barros.
3. O arquiteto Oscar Niemeyer continua o sonho de Brasília. A Obra, iniciada em 1956, finalmente ganha solidez concreta. Havia muita ansiedade para se ver como ficaram “os palácios como que suspensos, leves e brancos, nas noites sem fim do Planalto”. Os barnabés do Rio torciam contr a transferência da capital. Iam trocar Copacabana pelo sertão goiano.
4. Subitamente alegre e antenado com a bossa-nova, Antônio Maria, o autor de Ninguém me ama, escreve, com Luis Bonfá, a canção Manhã de carnaval para a trilha do filme Orfeu negro. Quarenta anos depois ela é, com novecentos registros, a música mais gravada no exterior depois de Garota de Ipanema.
5. Pelé passa para Pagão, Pagão pipoca pela ponta para Pepe, Pepe pega, pára, pisa a pelota e pimba, é Gooooool. A bilabial explosiva sonora dos locutores esportivos narrou 143 gols do ataque santista, campeão paulista. Nunca mais se marcaria tantos gols num só campeonato; Pagão (15 gols), Pelé (61) e Pepe (27).
6. Roberto Carlos e Erasmo se conhecem nos intervalos da aula de datilografia de um curso na Praça da Bandeira, no Rio. Por enquanto, não produzem nada. Erasmo participa de algumas brigas entre colégios, mergulha do pontão do Flamengo e forma o conjunto The Snakes, de violão e baladas-rock. De vez em quando junta-se a Roberto e Tim Maia nos Sputniks. E vice-versa.
7. O cantor João Gilberto, um baiano esquisito de Juazeiro, lança um 78 rotações com Chega de saudade, de Tom e Vinícius, de um lado e Bim-bom, um falso baião, do outro. Ali inventa a bossa-nova. Dezenas de músicos perseguiam o ritmo pelas boates de Copacabana. Chegaram perto. Faltava o balanço do violão de João. Agora, cheio de pitadas de jazz, estava pronto o banquete que ia regalar o mundo. Os ouvidos brasileiros nunca mais seriam os mesmos.
8. As certinhas do Lalau fazem os homens delirar com suas coxas grossas, cintura de pilão e um ar maroto de quem havia acabado de dar aulas práticas às mulheres de papel de Carlos Zéfiro, Wilza Carla é a rainha do carnaval.
9. Os cinemas ficavam lotados com as chancadas da Atlântida. Tudo muito simples: humor, carnaval e as tais boazudas. Zé Trindade brilha em O batedor de carteiras. Depois de uma conquista, pisca o olho para a câmera e jacta-se: “É chato ser gostoso”. Zé tinha borogodó.
10. Luis Carlos Prestes sai do esconderijo de dez anos e reaparece em público, com a mulher e nove filhos, sois deles adotados. È um dos sinais mais espetaculares da democracia JK. Nas eleições de outubro, uma das alianças dos comunistas ganha em Pernambuco, mas nos outros estados a derrota é fragorosa. Há um primeiro racha: de um lado, o PCB, de orientação antiestalinista; do outro, o PC do B, de linha chinesa. É o início de milhares de subdivisões nas décadas seguintes.
11. O rádio de pilha entra em cena e é num deles, o Transistone, da Philco, que o presidente JK ouve, no Catete, o jogo final do Brasil na Copa. O grande exibicionismo é levar o rádio para a areia da praia. Junta gente, admira com os rumos da tecnologia. Se o Zé Trindade estivesse por perto, diria: “O que é a natureza, hein, minha filha!?”
12. O LP passa de dez polegadas, com suas minguadas oito músicas, para o formato de doze polegadas. Ganha-se mais quatro músicas por disco. Por enquanto, o som ainda é em alta fidelidade, apesar da chegada para testes de alguns aparelhos em estéreo da RCA Victor. Quem sabia das coisas comprava discos na Loja Palermo, da rua da Carioca, na verdade uma tremenda lavação de dinheiro de um dos mais poderosos bicheiros da cidade, o próprio capo Palermo.
13. Os “Mexericos da Candinha” na Revista do Rádio revelam ao Brasil quem anda na lambreta das vedetes.
14. A cantora Maysa lança Meu mundo caiu, tenta o suicídio e acaba se ferindo num acidente de automóvel na avenida Atlântica. Ela vivia na fossa, com seu s olhos azuis, dois oceanos não pacíficos, sempre abertos de espanto. Clima noir, existencialismo francês, por ai.


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